Titãs e o melhor disco de rock nacional dos últimos 20 anos

Claudio Dirani

Titãs e o melhor disco de rock nacional dos últimos 20 anos

Por Claudio Dirani

No instante em que o primeiro acorde de “Fardado” invade o ambiente, já dá para concluir: O intervalo de quase exatos cinco anos que separaram o novo álbum “Nheengatu” do anterior, “Sacos Plásticos”, foi um sacrifício necessário para concluir uma espécie de transição para os Titãs. Foi durante esse período que a banda paulistana voltou a se apaixonar pelo som que levou os caras ao pedestal em 1986, com seu maior clássico “Cabeça Dinossauro”.

Essa retomada do terreno não se resume a uma pegada mais venenosa das guitarras, esquecida por exemplo, em trabalhos como “Domingo” (1997) e “Como Estão Vocês?” (2003).  Quem acompanhou os shows “laboratório” da turnê “Futuras Instalações” e as comemorações de aniversário de “Cabeça Dinossauro” já sentia que os Titãs tinham retomado letras mais sociais e desbocadas que cativaram o seu exército de fãs, desde os tempos de SESC Pompeia nos anos 80.

Transgressão

“Fardado” – a faixa um – aponta o dedo, sem amarelar. Aqui está de volta o clima transgressor de “Polícia”, em parceria assinada por Sergio Britto e Paulo Miklos, que critica a postura policial/militar. Sem tempo para amortecer a pancada, as guitarras voltam a rugir com uma introdução à moda Black Sabbath. “Mensageiro da Desgraça” – música bastante experimentada ao vivo – é outro olhar sobre tragédias que se abatem pelo centro da capital: “Cansei da fome, do crack e da cachaça”, urra Paulo Miklos.

“República dos Bananas” segue o roteiro, mas se engana quem pensa que ela fala sobre os recentes casos de racismos com o jogador Daniel Alves (#somostodosmacacos).

A voz de Branco Mello é um roteiro, com batida punk, que canta alguns vícios sociais atuais “Calunias sociais dois tipos bacanas/bundas e caras na República dos Bananas”. A letra parece uma coleção do que as pessoas postam hoje na Internet. Alguns nomes reais são lembrados de forma pejorativa “Angeli, ex-cartunista, porco e nojento”. Tudo isso em pouco mais de 2 minutos.

Futilidades

A excursão da crítica às futilidades continua com “Fala, Renata”, outra pedrada que detona uma garota que nunca para de falar, e quase sempre mal dos outros. Os vocais aqui misturam influencias de “Cabeça Dinossauro” e “Tudo ao Mesmo Tempo Agora”.

“Cadáver sobre Cadáver” soa como Titãs em 2014, mas sem esquecer da crítica. “Cadáver sobre cadáver… quem vive, sobrevive. Morre quem mereceu e quem não merecia”.  Se você notou um clima familiar, não se enganou. A música é uma parceria entre Paulo Miklos e o ex-Titã Arnaldo Antunes.

E se engana mesmo quem pensava que a cover de Walter Franco se destoaria no meio das inéditas. “Canalha” faz a ponte perfeita com outra letra nem um pouco light.  “Pedofilia” é Titãs em puro punk paulistano, repudiando a violência contra as crianças.

Lado B

Se fosse o bom e velho vinil, “Nheengatu” inauguraria o lado B com “Chegada ao Brasil” (“Terra à Vista”), sátira às origens brasileiras e aos péssimos clichês ligados à nossa nação.  Na sequência, o ska beat de “Eu Me Sinto Bem” entra no lugar do rock (sem perder o peso), sendo a mais leve e inofensiva até o momento. O clima mais ameno prevalece também em “Flores para Ela”. Mas não aposte em pianinhos elétricos ou clima de balada: a letra fala de um relacionamento cinza, com trovões e raios.

A reta final de “Nheengatu” traz, na fila, três das melhores faixas do disco. Tudo com menos de 3 minutos cada. “Não Pode” é puro Titãs, detonando o conjunto de regras de que tenta controlar os hábitos das pessoas.  “Senhor” retoma o punk-rock, com uma oração irônica. “Não me livre do inferno, me livre do tédio/não me livre da loucura, me livre do remédio”.

“Baião de Dois” traz o melhor que o rock nacional poderia oferecer hoje, em tempos de seca, com letra agressiva e desbocada. Ela abre espaço para o fim do programa, com “Quem São Os Animais. Para não perder o costume, a música é um tapa na cara do preconceito, detonando racismo e homofobia: “Você tem que respeitar o direto de escolher, livremente”.

Sendo assim, respeite o meu gosto. Elejo “Nheengatu” como o melhor disco de rock nacional dos últimos 20 anos.



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