Redação 89

Nando Reis bate um papo com a 89 em Nova York

Em passagem por Nova York, onde realizou um show na última sexta-feira, dia 10, Nando Reis bateu um papo com a 89 FM. Falou sobre o novo trabalho inédito, Jardim Pomar, cuja primeira música de trabalho “Só Posso Dizer”, já está na programação da 89. Contou também sobre as participações especiais de músicos americanos, suas influências musicais e os filhos, que começam a seguir seus passos na música.

 Você ficou quatro anos sem gravar um CD de inéditas, desde Sei. É uma emoção diferente voltar a gravar e apresentar ao público músicas novas?
Talvez a parte que eu mais gosto na minha profissão é entrar em estúdio e gravar discos. Porque é a partir disso que tudo se movimenta. No disco eu levo as músicas que compus, os arranjos que faço com a banda e de onde eu reúno material para fazer os shows. Acontece que o mercado mudou muito, então há uma necessidade, uma atenção de minha parte de cuidar porque são poucos os que compram discos. Na verdade, a ideia de um disco não é simplesmente a realização de uma vaidade, mas sim, uma necessidade de apresentar uma obra artística que se reporta a quem se interessa por ela, a quem ela pode alcançar. O intervalo de quatro anos, diferente do que muita gente pode imaginar, não é por falta de repertório nem de vontade. É uma maneira de administrar. Primeiro porque é frustrante fazer um disco e não poder cuidar. Na verdade, a maneira como o mercado se transformou exige uma transformação na forma de divulgar e eu sou um artista independente, o que é bastante diferente dos 30 anos de Titãs e mais 10 de carreira solo que fiquei vinculado a outras gravadoras. Isso significa que eu custeio tudo o que faço. Então gravar um disco custa dinheiro, lançar e divulgar um disco custa dinheiro. Então, esse também foi o período necessário para me organizar, produzir e pagar esse disco da maneira como eu quis, porque é um disco que foi lançado não só em CD, mas também em dois vinis, em cassete e em todas as plataformas musicais. Esse é um trabalho que exige cuidado e tempo. Eu costumo dizer que levei 54 anos para fazer esse disco.

Em Jardim Pomar, seu trabalho mais recente, você trabalhou com Mike McCready, guitarrista do Pearl Jam, com Jack Endino, que foi produtor do Nirvana e com quem você já havia trabalhado antes, e com Barrett Martin, baterista do Screaming Trees. O que você tinham em mente quando buscou essas parcerias e o que você acha que elas acrescentaram ao novo disco?
Eu gosto de trabalhar em equipe, coletivamente. Na hora que eu entro no estúdio e chamo os músicos, a participação deles é importantíssima. Ao longo da minha experiência, eu tive conhecimento e contato com músicos com os quais eu tive muita afinidade e admiração pela qualidade do trabalho musical deles. O Jack Endino é um amigo antigo, que produziu discos dos Titãs, meu segundo disco solo e esse é o terceiro disco que eu faço com ele como produtor. O Barrett é baterista e produtor e, como os outros, também mora em Seattle e foi quem me apresentou ao Peter Buck do REM. Tem o Mike McCready, do Pearl Jam, que também toca no disco. Enfim, eu gosto de buscar essa junção. A minha formação como músico se dá basicamente com música brasileira, mas há também grande influência de música de língua inglesa. Ou seja, é natural para mim que o que eu vá produzir conte com essa participação. Quando eu pude viajar e conhecer músicos norte-americanos, era isso que eu queria: que a minha música tivesse todos esses elementos. Por exemplo: tem um tecladista que toca comigo há muitos anos, o Alex Veley, que é norte-americano. Há algo que só ele pode tocar graças à sua formação. A música que eu faço é resultado dessa somatória. E eu preciso trabalhar com gente que eu gosto, porque a produção acaba envolvendo a afinidade, a relação pessoal. Eu não sei trabalhar se não for dessa forma.

Tem alguém em quem você se inspira? Quais são seus ídolos?
A inspiração vai além da parte musical. Tem a ver com a forma como é feito, a posição dessas pessoas em relação ao mundo. Para você ter uma ideia, eu estou lendo uma coleção de livros muito interessantes, chamada 33 1/3. São pequenos volumes e cada um aborda um disco específico. Eu acabei de ler o que fala de Let it Be, dos Beatles e comecei a ler Songs in the Key of Life, do Steve Wonder. Anteriormente, eu já tinha lido sobre o Harvest, do Neil Young e sobre o Live, disco ao vivo do Donny Hathaway. São quatro artistas fundamentais, maravilhosos, especialmente o Stevie Wonder. O Donny Hathaway eu conheci mais recentemente, embora ele tenha produzido seus discos nos anos 70. Mas a banda que eu mais gosto certamente é o Led Zeppelin.

Em suas composições, você faz muitas referências à sua família. Agora seus filhos Theodoro e Sebastião estão chegando com a banda Dois Reis. Como pai e músico, o que você está achando de eles seguirem seu caminho na música?
É claro que há muitas coisas que eu observo e posso dizer que tenho medo, porque pais sempre têm medo do futuro dos filhos. Mas é uma coisa natural. Não tenho nenhuma dúvida da capacidade deles, mas em primeiro lugar eu quero que eles se realizem. Eu não me meto muito. Eu espero que eles me perguntem, mas obviamente eu tenho minha opinião. Acho que agora, depois de 3 anos de banda, o trabalho deles chegou a uma linguagem própria. Eles já estão gravando seu primeiro disco e é claro que como pai eu fico orgulhoso e torcendo. Como músico, eu tenho consciência de que ser filho de um pai famoso mais atrapalha do que ajuda. Tem a comparação, a maneira preconceituosa com que as pessoas acham que tudo o que eles fazem é devido ao prestígio emprestado de mim. Isso é uma idiotice. Ninguém conquista nada na vida se não for por méritos próprios.

Em seu novo disco, uma única música não é inédita: Concórdia, que foi gravada por Elza Soares há muitos anos. Depois que outro artista grava uma composição sua, o que o leva a também querer gravá-la?
É estranho porque essa decisão não se dá por uma avaliação crítica. É bastante subjetiva e acompanha algo circunstancial dentro do que aquele disco se configura. Essa música é bem antiga.  Eu sempre achei que ela tinha uma beleza e que um dia eu iria gravá-la. Não sei dizer o porquê, mas chegou a hora dela. Eu, felizmente, tenho muitas músicas gravadas por outros artistas e gosto de todas elas porque acho que cada artista dá um ângulo diferente à composição. De alguns eu tenho mais afinidade, proximidade. A Cássia Eller, por exemplo, foi quem mais gravou músicas minhas, me convidou para produzir os discos dela. Quando eu saí dos Titãs e comecei a fazer meus shows solo, aconteceu uma coisa curiosa: eu repatriei muitas músicas porque, de certa maneira, eu estava precisando ter maior clareza de qual era a minha identidade musical. As pessoas comentavam que eu estava cantando a música da Marisa Monte, da Cássia Eller. É natural, porque é o intérprete que dá voz à música. Mas em um determinado momento eu senti vontade e necessidade de as pessoas reconhecerem a minha autoria.

A entrevista foi produzida por Rogéria Vianna, correspondente da 89 em Nova York.

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