Alex Turner fala sobre novo disco do Arctic Monkeys

Redação 89

Alex Turner fala sobre novo disco do Arctic Monkeys

ENTREVISTA ALEX TURNER SOBRE O LANÇAMENTO DO NOVO ÁLBUM “TRANQUILITY BASE HOTEL & CASINO”

Entrevistador: São cinco anos desde o lançamento do álbum “AM”. O que você tem feito todo esse tempo?

Alex Turner: Eu tenho feito algumas gravações, gravei com uma cantora chamada Alexandra Savior. As músicas foram produzidas pelo James Ford, com quem trabalho junto desde os vinte anos. Eu fiz uma outra gravação também com o Miles Kane, a segunda parcela da saga do The Last Shadow Puppets, e depois disso tudo eu fui direto para esse novo álbum para ser franco.

Entrevistador: Você compôs esse álbum de modo diferente do que tinha feito anteriormente, você compôs no piano. Por que essa mudança?

Alex Turner: Isso é verdade! Um piano apareceu na minha casa como presente de aniversário de trinta anos, dado pelo meu empresário. Um presente muito gentil. Última vez que ele me deu um instrumento de presente foi quando eu tinha 21 anos, era um violão acústico LG-1 da Gibson e eu escrevi várias canções usando ele. Eu acredito que irei compor mais músicas usando esse violão, mas cheguei a um ponto que quando componho usando um violão ou guitarra eu já sei mais ou menos aonde a música vai me levar. O que quero dizer é que antes do piano chegar eu não me lembro de ter tido muitas ideias novas. E quando chegou, a minha imaginação reacendeu.

Entrevistador: Vamos falar sobre a primeira faixa do álbum, “Star Treatment”. Ela começa com a frase “Eu apenas queria ser um dos Strokes”. Por que?

Alex Turner: Bom tem várias coisas que eu posso falar sobre isso, qual delas eu devo falar… para ser honesto, eu não pensei no significado por trás daquela linha, eu estava tão entretido no piano como nós estamos falando, eu acho que o caminho da minha imaginação para escrever aquilo, ou cantar, não existe na verdade, nada especifico, quando eu escrevi a primeira linha, ou melhor, quando escrevi o verso inteiro, foi na verdade mais um esboço ou algo assim, e pensei que mais tarde eu voltaria, e adaptaria aquilo ou mesmo jogaria fora, mas aconteceu de eu voltar e o verso “I just wanted to be one of The Strokes, now look at the mess you made me make / Hitchhiking with a monogrammed suitcase, miles away from any half-useful imaginary highway” e ficou do jeito que está.

Entrevistador: Fantástico! Esse trecho é fantástico, você cria imagens com a sua letra e eu amo isso. Você pensa nisso enquanto escreve essas letras? O que você fala consegue realmente visualizar em sua mente da mesma forma.

Alex Turner: É exatamente o que estou querendo fazer.

Entrevistador: Você é um mestre nisso.

Alex Turner: Bom, não sei…Mas é muito gentil da sua parte. Para mim, o que quero dizer é…a parte sobre o The Strokes é verdade e é por isso que quando voltei a esse trecho eu não mudei nada, há uma verdade nisso. O que esse trecho me diz é que o tempo passou muito rápido, agora estou nesse momento atual, mas parece que alguns momentos atrás eu usava o Blazer da minha mãe querendo ser do The Strokes. Por todos esses motivos me senti atraído a esse trecho e não modifiquei essa letra.

Entrevistador: Como surgiu a música “One Point Perspective”?

Alex Turner: Bom, “One Point Perspective” (perspectiva com um ponto de fuga) é uma técnica que é usada às vezes em ilustração/desenhos. O que eu aprendi sobre isso foi através do

cinema, através do trabalho do Stanley Kubrick, e ele usa isso em todos os seus filmes, em algum momento. Isso é o enquadramento da câmera em que o sujeito fica no centro e há uma simetria na imagem, causando certo desconforto no espectador quando utilizado, você não está acostumado a ver esse tipo de coisa, é meio sinistro. Você vê isso várias vezes em seus filmes, como o Monólito no canto da cama, em 2001. Isso é “One Point Perspective”. Nós não abordamos isso na música, mas a sensação que esse efeito cria nos filmes tem a ver com as ideias que exploramos na letra dessa faixa.

Entrevistador: Bom, eu considero que muitas de suas músicas soam cinemáticas, especialmente como trilha sonora de um filme do Stanley Kubrick.

Alex Turner: Eu definitivamente levo isso como um elogio. É interessante que eu já usei a palavra “cinemática” antes, talvez não para descrever minha própria música. Mas talvez para descrever um som ou algo assim, não sei, talvez em algum momento tenha usado para descrever o som de algum trecho. Mas o que eu realmente acho, é que isso conta com o fato de ser um álbum e não a trilha sonora de um filme. De várias formas eu acho que isso funciona, pelo fato de deixar a sua imaginação criar.

Entrevistador: Não está bem diante dos seus olhos, você usa sua imaginação e visualiza a imagem por si só.

Alex Turner: Sim, é isso mesmo.

Entrevistador: Então, quando você falou da faixa que dá nome ao álbum “Tranquility Base Hotel & Casino”, os sons nessa música em particular são perfeitos para ilustrar o que nós estávamos falando agora, ser bem cinemático. Quanto tempo demora para criar os sons certos para passar essa imagem auditiva? E o timbre do baixo ficou perfeito nessa música.

Alex Turner: Legal! Você toca baixo, Walt?

Bem mais ou menos, não sou muito bom.

Alex Turner: Bom, quanto ao baixo, o timbre dele, baseado em “Histoire de Melody Nelson”, de Serge Gainsbourg, é algo que temos buscado há bastante tempo, uns dez anos pelo menos, e talvez tenhamos chegado um pouco mais perto agora, tendo recebido informações privilegiadas. Mas sim, acho que você não perguntou especificamente do baixo, mas falei um pouco do que estávamos buscando quanto a isso. E sim, bastante da nossa atenção foi voltada para criar esse tipo de som, tanto quanto para outros processos do álbum.

Entrevistador: A música “Four Out of Five” (primeiro single) parece um comentário num review da Yelp (App de Avaliação de estabelecimentos comerciais), quero dizer, você fala sobre uma taqueria na Lua, é um conceito fantástico, de onde veio essa ideia?

Alex Turner: Deixe me ver, bem eu acho que a música “Four Out of Five” definitivamente se originou da música que nós pegamos como título do álbum “Tranquility Base Hotel & Casino” onde há essa vaga sugestão de uma colônia na Lua, que é onde fica esse Hotel e Cassino, e “Four Out of Five” começa a explorar isso um pouco mais profundamente, e a ideia de que até esse Hotel Cassino na lua, não pode ser isento do processo de urbanização.

Entrevistador: Você inclusive volta a esse tema em “BatPhone”, quando começa a falar sobre ser sugado por um buraco no seu celular, sendo algo que todos nós fazemos atualmente.

Alex Turner: Tá certo. Sim, falamos disso de forma mais direta mais para frente, não é mesmo? Exatamente. E pra ser sincero, não é como se eu quisesse escrever sobre essas coisas, apesar de ter feito várias vezes já. É quase como se eu não quisesse escrever sobre isso, mas está presente à nossa volta, então o jeito é achar a melhor forma de escrever sobre.

Entrevistador: Voltando a “Four Out of Five”, no meio da música acontecem várias modulações e mudanças de tom, que são bem importantes para chegar ao final, que tem um refrão bem grandioso. Foi muito difícil compor todas essas etapas para chegar ao que estava perfeitamente alinhado no refrão?

Alex Turner: Certamente não tão difícil quanto tentar descrever isso para você.

Entrevistador: Aí está, até que fluiu bem, foi fácil para você falar, você inclusive se refere a isso na letra.

Alex Turner: Eu agradeço! Alguém finalmente captou isso, finalmente vamos poder discutir sobre isso (risos). Bom, não foi um trabalho de dois minutos, foi algo…Instintivo. Essa é a resposta, eu diria. O que é verdade quanto às letras também. Um meio que dá informações sobre o outro e nesse caso eu diria que a música parece informar muito mais sobre a letra do que ao contrário. Acho que o que acontece musicalmente é basicamente se dar o tempo para explorar o que está lá. Você tem a pedra e vai esculpindo até se formar a escultura. Foi uma ideia meio Michelangelo se me permite dizer.

Entrevistador: O riff no começo é ótimo e essa parte é importante para chegar ao final com o refrão majestoso e tudo mais. É uma daquelas músicas que você precisa ouvir várias vezes para que comece a entender mesmo e compreenda onde ela quer chegar. Não foi muito bem uma pergunta mas…

Alex Turner: Mas estou tentando desesperadamente torna-la uma pergunta (risos).

Entrevistador: “The World’s First Ever Monster Truck Front Flip”. Sério? Uma Monster Truck (Caminhão Monstro) nunca fez um flip frontal antes?

Alex Turner: Aparentemente não.

Entrevistador: De onde veio essa música?

Alex Turner: Bom, foi um evento que aconteceu um ou dois anos atrás e é realmente incrível, e temos que concordar com isso antes de prosseguir. E pareceu totalmente apropriado para começar o segundo lado do LP.

Entrevistador: Você pensa no álbum como duplo quando está no processo de montar a sequência do álbum?

Alex Turner: Penso sim, sempre pensei na verdade. Ajuda a concluir tudo. Não sei, eu gosto de que tem um começo, meio e fim. Sabe o que quero dizer? É algo que sempre esteve em mente, em todo álbum que nós já fizemos. Nos ajuda a completar o processo.

Entrevistador: A última faixa do álbum ‘The Ultracheese’ é a canção perfeita para fechar este trabalho, porém as últimas notas meio que te deixam querendo mais. Você tem essa impressão também?

Alex Turner: Bom, acho que pode dizer que o final não se resolve por completo na parte musical, porém na outra parte ele se resolve.

Entrevistador: Sua última frase “but I haven´t stopped loving you once” (mas eu nunca parei de te amar sequer uma vez), é muito boa. Ótimo jeito de finalizar o álbum. É o fim perfeito para esse trabalho. Alex Turner: Legal! Fico feliz que acha isso.

Entrevistador: Você gravou bastante coisa sozinho, no estúdio da sua casa, “The Lunar Surface”, numa Tascam, 8-Pistas, das antigas, mas depois você não conseguiu recriar alguns desses sons quando foi gravar no La Frette, em Paris?

Alex Turner: Bom, várias linhas de voz que você ouve no álbum são das demos (gravações) de 8-pistas, e há algumas partes de baixo, bateria, teclado, aqui e ali que foram feitas antes, mas a maioria foi gravada de novo depois no La Frette. A maioria dos vocais, com exceção de ‘Science Fiction’ e ‘The Ultracheese’ e outras duas talvez, são de gravações anteriores de demos. Existe uma oportunidade na primeira vez que você grava, de tirar algo daquela performance que seja único para aquele momento.

Entrevistador: É como pureza…

Alex Turner: Possivelmente. E eu perdi a conta de quantas vezes esse tipo de coisa aconteceu nesse álbum.

Entrevistador: Quando estava gravando no La Frette, você colocou os músicos para tocarem juntos em uma sala ao mesmo tempo. De onde veio essa inspiração?

Alex Turner: Isso veio de outros álbuns. Alguns dos meus álbuns favoritos foram gravados desta forma. Como por exemplo, Pet Sounds (The Beach Boys), parte dele foi gravado desta forma e há outro álbum chamado Born to Be With You do Dion, que eu amo muito e que foi, pelo que eu sei, gravado desta forma também. Dois pianos, várias pessoas tocando violão, dois bateristas e tudo vazando pelos microfones. E ouvi falar que esse método foi feito em álbuns do Isaac Hayes, como na gravação de Walk on By, todo mundo numa sala. De qualquer forma, não sei se foi inteiramente apropriado para esse álbum, mas sempre foi algo que queríamos tentar. Foi meio que um híbrido disso com gravações das Tascams de casa, tocando junto com essas gravações que trouxemos para o La Frette. Mas o que eu aprendi com essa experiência foi que definitivamente tem uma energia diferente quando você toca com nove ou dez pessoas, o jeito que você toca nesse ambiente obviamente será totalmente diferente do jeito que você toca quando apenas leva seus pedais na sala de controle e grava. E também não pode ser tão exigente com tudo, é um dos pontos principais dessa abordagem. Tem algo que você tira disso também.

Entrevistador: Uma última coisa, vocês criaram um modelo de verdade do Hotel e Casino, para a arte do álbum. Do que ela foi feita? Quanto tempo demorou? O que vocês irão fazer com o modelo?

Alex Turner: A última pergunta eu realmente não sei te responder. Quanto às outras duas, foi feito com uma prancheta de ilustração e um pino de madeira. E qual era a outra pergunta? Quanto tempo demorou? O processo todo demorou alguns meses. Tinha algumas coisas diferentes que poderiam estar na capa do álbum. Como um modelo de lobby (entrada) de hotel, que eu tentei fazer também. Mas esse modelo final acabou sendo o escolhido. Então demorou alguns meses acho.



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